Existem certos momentos que ficam marcados na nossa mente de forma indelével: as emoções causadas por uma bela música ouvida num momento crucial da sua vida, por exemplo. Essa música do Erasure é um single que pode não ter tanto peso na longa discografia da dupla mas para uma parcela de frequentadores do clube Yellow em Maringá (PR) no começo de 1990 (e eu era um deles) ela tem um significado especial.
Numa época em que a house music era A novidade na noite e chegava com toda a sua força, clubes e danceterias se espalhavam pelo Brasil tocando seus beats eufóricos, diferente do pop e do rock pós-punk dos 80 que até então dominavam os dancefloors. Em Maringá, os habitués da Yellow esperavam ansiosamente o fim de semana, principalmente na matinê do domingo, para vermos descer do teto um sistema de luz exclusivo do boate (o tal do Órion) e que nos hipnotizava junto com esta track do Erasure numa combinação infalível que nos causava arrepios: esse era o momento de abertura da pista e sinalizava horas de felicidade sob as luzes e o sound system perfeitos do lugar.
Vale lembrar que o Erasure já era dono de hitaços como “A Little Respect”, “Blue Savannah” e “Stop!”. E que esta versão no video abaixo não corresponde à original estendida que tocava na Yellow, mas vale para refrescar a memória de todos aqueles sortudos que estiveram lá e estão por aí pra contar as inúmeras histórias desse clube histórico do Paraná.
Este post é uma homenagem ao Yves, saudoso DJ e proprietário da Yellow.
Definitivamente a primeira metade dos anos 1990 foram uma época muito prolífica. Esta música foi lançada exatamente num momento em que a house, o techno e o recem-nascido trance estavam lançando pencas de produções inovadoras (volto ao assunto na sequência).
“I Can’t Stop” sempre me intrigou pelo fato de ser algo indefinível: um autêntico crossover entre aqueles três estilos (house-techno-trance). Os graves poderosos, o baixo que remetem a “Show Me Love” da Robin S (hit-onipresente em 1993), o tecladinho Hammond (que lembram “Plastic Dreams” de Jaydee) são os trunfos dessa track, além da percussão se tornar totalmente tribal em alguns momentos. Uma salada sonora feliz. E um clássico underground.
Esse produtor e DJ foi o responsável pelo primeiro contato entre as cenas de Amsterdã e Detroit (via Kevin Saunderson). E não era à toa: seu techno de poucos elementos e sofisticação melódica tinha tudo a ver com a capital do techno no comeco dos anos 1990. Uma das músicas que bem exemplifica essa consistência é “Play It Loud” do projeto Baruka de 1994, um dos inúmeros aliases que Voorn assumiu na sua longa discografia.
Como no post anterior, continuo com o assunto Holanda, e ainda sobre o DJ e produtor Steve Rachmad, um dos meus preferidos de Amsterdã.
Ignacio é outra persona de Rachmad e o single que representou bem seu som é justamente este primeiro que lançou o projeto. Com bpms lá em cima é a cara do techno da época: minimal e acelerado. Ao mesmo tempo com um senso melódico que quebra um pouco o fato da música ter poucos elementos e ser tão repetitiva. Coisa de mestre.
E a Copa, hem… Se você, como eu, não leva isso muito a sério, vai entender porque estou citando a Holanda nesta espécie de homenagem à música de maior qualidade que ela tem nos brindado nas últimas décadas.
Um dos meus produtores prediletos é o DJ Steve Rachmad, tido como o mais detroitiano dos produtores de Amsterdan, sobretudo sob a alcunha de Sterac, que nos anos 90 nos brindou com esta obra-prima.
http://www.youtube.com/watch?v=J4Xsu5s2uuU
Trilha sonora de muitos fins de noite e provavelmente ponto alto dos primeiros after hours no Brasil, esta música é a prova que o techno também pode ser melódico, poético e, sobretudo, sofisticado.
Depois dos anos 2000 Rachmad transformou o projeto em Sterac Eletronics. Mas além desse alias, também ficou conhecido como Ignacio, Dreg, Continous Cool e, claro, Rachmad Project, dos quais vou voltar a falar mais pra frente.
Um outro projeto que me encantou com um single apenas foi o K-Klass. Os ingredientes estavam ali: ótimos timbres e sequenciadores, vozeirão poderoso (cortesia de uma certa Bobbi Depasois) e um piano killer. Só podia dar certo e “Rhythm is a Mistery” alcançou o 3º lugar nas paradas de singles do Reino Unido em 1991. Diz a lenda que eles frequentavam o mítico clube Haçienda em Manchester, conheceram um dos integrantes lá e acabaram se apresentando ao vivo depois nesse mesmo lugar.
Até hoje fico emocionado quando escuto isto:
Pelo que ouço falar, o DJ Renato Lopes em São Paulo tocava este hit nos áureos tempos do primeiro clube a divulgar a cultura clubber no Brasil, a Nation. E dessa época, tem este vídeo com a apresentação deles no Top Of The Pops.
E este foi o single “Let Me Show You” que tinha a receita certa para ser um hit mas acabou não repercutindo tanto.
Subestimados no Brasil, a dupla The Beloved teve dois hits no começo dos anos 90. Apesar do seu primeiro álbum “Hapiness” ser lançado por aqui (que eu tenho bem guardado pois comprei o vinil lançado no Brasil na época), só tiveram alguma repercussão entre os muito aficcionados de sons eletrônicos (leia-se um meia dúzia de gatos pingados em Maringá, onde eu morava, não sei como foi no país na época, mas imagino que não tenha sido diferente do que onde morava).
O primeiro grande single da banda, “The Sun Rising”, falava do nascer do sol, numa ligação direta aos fenômeno das raves que assolavam a Europa entre 1989 e 1993. Aqui a gente lia sobre o assunto babando de inveja nas revistas Bizz (na coluna Dance Music do mestre jornalista Camilo Rocha) e na Folha de São Paulo (via Noite Ilustrada da descolada Erika Palomino). Graças a essas poucas fontes não ficávamos tão às cegas na garimpagem de informação. Mas voltando ao The Beloved, o som deles caiu como uma pluma nos meus ouvidos sedentos de sons sintéticos e viciado em melodia (e coloca VICIO EM MELODIA nisso). Comprei o vinil e ouvi meses sozinho em casa devaneando como devia ser legal dançar num descampado com o sol nascendo…
Em 1993 viajava pela primeira vez pela Europa, maravilhado com a Espanha – era um sonho realizado de anos. Sozinho com uma mochilão nas costas. E apesar de ficar limitado a viajar só na Espanha, pra mim foi uma verdadeira virada de vida, fascinado que estava com tudo. E ouvia as rádios em toda oportunidade que podia! E até quando não podia, dormindo com o walkman ligado até a pilha acabar. Foi quando comecei a notar uma espécie de house com bpm extremamente baixa e muito bonita que tocava toda hora na programação, fosse em Madri, Barcelona ou Santiago de Compostela. Não demorou muito pra descobrir que eram os The Beloved com seu novo hit “Sweet Harmony”. Disso tudo, a lembrança mais forte com essa música é eu sentado na praia com os pés na água, num dia de sol olhando a baía de San Sebastian sozinho no meio de uma multidão. E com a trilha sonora perfeita, diz aí…
Semana dedicada a uma parte dos anos 1990 que tocaram a todos que lá estiveram, como eu e vários amigos espalhados pelo mapa do Brasil. Como bem lembrou o Xisto, que agora mora em BH, foi uma época em que eu morava em Maringá (região do Norte paranaense) e tínha uma turma de amigos e agregados obcecados pelas novidades que vinham da Europa. Até uma mini-rave (se é que podemos chamar assim) a gente tentou fazer na época!
Entre muitos que faziam parte dessa turma dos loucos por música e noite, começo mencionando Josley B, Fabricio (D.Vyzor), Adriano (Haveck) e Docão que se tornaram todos excelentes DJs, além de Batata & Carlão (dupla engraçada que se agregou a nós), o promoter Waltão Garcia e os irmãos Ricardo e Marcelo. E mais tarde o próprio Xisto iria se juntar a nós. A maior parte dessa turma animada acabou se juntando até pela frequência da danceteria que foi fundamental para a noite de Maringá nessa década, a Yellow. E foi nesse lugar que assistíamos muitos vídeos recém-lançados pela Telegenics, distribuidora poderosa da época e que nunca tínhamos ouvido falar, mas que foi fundamental na divulgação dos novos artistas que bombavam na novíssima cena da house e techno da época. Internet? Mp3? Nem sonhávamos, definitivamente eram outros tempos.
E como trilha desse momento, lembro muito bem dessas músicas mais doces embaladas com uma voz suave de alguma cantora obscura que tinham apenas um hit e depois sumiam, para dar a vez à próxima novidade. Uma delas foi Kirsty Hawkshaw do Opus III, nessa enigmática “It’s a Fine Day”, que até hoje não entendo como fez tanto sucesso: pode-se dizer que era o vocal, os arranjos de bom gosto (o que não quer dizer que seja popular), a melodia grudenta, o fato da música ter um formato pop, sei lá. Pense comigo: quantas músicas nesse formato foram lançadas ne época? Aqui no Brasil chegaram poucas, mas sei que no Reino Unido tinham vários singles com essa proposta.
E só pra constar, a versão original dessa bela música é da dupla Jane & Barton em 1983.
Uma das músicas que queria postar há tempos é este clássico do grupo inglês Sunscreem, que só traz boas recordações a todos da minha geração que viram a chegada da house e da cultura rave no Brasil no começo dos anos 1990. O mais bacana dessa música é que ao mesmo tempo em que ela é dançante é quase uma balada de tão doce que são melodia e os arranjos e voz da cantora do grupo Lucia Holm. O caráter futurista desta “enchedora de pistas” vem dos timbres muito bem arranjados, além terem sido muito felizes na cadência dos acordes (total papo de músico).
Depois deste smash hit o Sunscreem, cujo nome descobri veio de um sintetizador da Yamaha, praticamente se tornou o famoso one hit wonder pois os singles “Perfect Motion” e “Pressure” não empolgaram tanto os fãs de música eletrônica na época. Mesmo assim com “Love U More” garantiram seu lugar como um dos grandes singles da década de 90.
No post anterior citei esse projeto que tem nos irmãos ingleses Robin e Simon Lee um dos responsáveis pelas boas produções de nu disco atuais. Eles fazem música desde a década passada sendo que daquela época o single que lhes deu grande visibilidade foi a cinematográfica “In The Trees” (1996) uma house sinfônica como poucas vezes se ouviu antes. Guardo o 12″ que comprei na época como um troféu.
http://www.youtube.com/watch?v=jCyScIB46Og
Com fortes influências de jazz, música latina e até ritmos africanos, nunca pararam de produzir. E foi com as faixas de inspiração disco que eles estão ganhando novo destaque. Em 2008 lançaram o álbum “Stratus Energy” no qual está o single da música homônima que ganhou espaço cativo no meu case.
E seguindo a trilha aberta pela disco animada, em 2009 lançaram “I Wanna Dancer” que possui vocais perfeitos com uma letra ótima, guitarra e baixos funky, sunths com timbres muito bem alternados além de violinos, os quais raramente se ouvem em produções eletrônicas.