Esse produtor e DJ foi o responsável pelo primeiro contato entre as cenas de Amsterdã e Detroit (via Kevin Saunderson). E não era à toa: seu techno de poucos elementos e sofisticação melódica tinha tudo a ver com a capital do techno no comeco dos anos 1990. Uma das músicas que bem exemplifica essa consistência é “Play It Loud” do projeto Baruka de 1994, um dos inúmeros aliases que Voorn assumiu na sua longa discografia.
Como no post anterior, continuo com o assunto Holanda, e ainda sobre o DJ e produtor Steve Rachmad, um dos meus preferidos de Amsterdã.
Ignacio é outra persona de Rachmad e o single que representou bem seu som é justamente este primeiro que lançou o projeto. Com bpms lá em cima é a cara do techno da época: minimal e acelerado. Ao mesmo tempo com um senso melódico que quebra um pouco o fato da música ter poucos elementos e ser tão repetitiva. Coisa de mestre.
E a Copa, hem… Se você, como eu, não leva isso muito a sério, vai entender porque estou citando a Holanda nesta espécie de homenagem à música de maior qualidade que ela tem nos brindado nas últimas décadas.
Um dos meus produtores prediletos é o DJ Steve Rachmad, tido como o mais detroitiano dos produtores de Amsterdan, sobretudo sob a alcunha de Sterac, que nos anos 90 nos brindou com esta obra-prima.
Trilha sonora de muitos fins de noite e provavelmente ponto alto dos primeiros after hours no Brasil, esta música é a prova que o techno também pode ser melódico, poético e, sobretudo, sofisticado.
Depois dos anos 2000 Rachmad transformou o projeto em Sterac Eletronics. Mas além desse alias, também ficou conhecido como Ignacio, Dreg, Continous Cool e, claro, Rachmad Project, dos quais vou voltar a falar mais pra frente.
Um outro projeto que me encantou com um single apenas foi o K-Klass. Os ingredientes estavam ali: ótimos timbres e sequenciadores, vozeirão poderoso (cortesia de uma certa Bobbi Depasois) e um piano killer. Só podia dar certo e “Rhythm is a Mistery” alcançou o 3º lugar nas paradas de singles do Reino Unido em 1991. Diz a lenda que eles frequentavam o mítico clube Haçienda em Manchester, conheceram um dos integrantes lá e acabaram se apresentando ao vivo depois nesse mesmo lugar.
Até hoje fico emocionado quando escuto isto:
Pelo que ouço falar, o DJ Renato Lopes em São Paulo tocava este hit nos áureos tempos do primeiro clube a divulgar a cultura clubber no Brasil, a Nation. E dessa época, tem este vídeo com a apresentação deles no Top Of The Pops.
E este foi o single “Let Me Show You” que tinha a receita certa para ser um hit mas acabou não repercutindo tanto.
Subestimados no Brasil, a dupla The Beloved teve dois hits no começo dos anos 90. Apesar do seu primeiro álbum “Hapiness” ser lançado por aqui (que eu tenho bem guardado pois comprei o vinil lançado no Brasil na época), só tiveram alguma repercussão entre os muito aficcionados de sons eletrônicos (leia-se um meia dúzia de gatos pingados em Maringá, onde eu morava, não sei como foi no país na época, mas imagino que não tenha sido diferente do que onde morava).
O primeiro grande single da banda, “The Sun Rising”, falava do nascer do sol, numa ligação direta aos fenômeno das raves que assolavam a Europa entre 1989 e 1993. Aqui a gente lia sobre o assunto babando de inveja nas revistas Bizz (na coluna Dance Music do mestre jornalista Camilo Rocha) e na Folha de São Paulo (via Noite Ilustrada da descolada Erika Palomino). Graças a essas poucas fontes não ficávamos tão às cegas na garimpagem de informação. Mas voltando ao The Beloved, o som deles caiu como uma pluma nos meus ouvidos sedentos de sons sintéticos e viciado em melodia (e coloca VICIO EM MELODIA nisso). Comprei o vinil e ouvi meses sozinho em casa devaneando como devia ser legal dançar num descampado com o sol nascendo…
Em 1993 viajava pela primeira vez pela Europa, maravilhado com a Espanha – era um sonho realizado de anos. Sozinho com uma mochilão nas costas. E apesar de ficar limitado a viajar só na Espanha, pra mim foi uma verdadeira virada de vida, fascinado que estava com tudo. E ouvia as rádios em toda oportunidade que podia! E até quando não podia, dormindo com o walkman ligado até a pilha acabar. Foi quando comecei a notar uma espécie de house com bpm extremamente baixa e muito bonita que tocava toda hora na programação, fosse em Madri, Barcelona ou Santiago de Compostela. Não demorou muito pra descobrir que eram os The Beloved com seu novo hit “Sweet Harmony”. Disso tudo, a lembrança mais forte com essa música é eu sentado na praia com os pés na água, num dia de sol olhando a baía de San Sebastian sozinho no meio de uma multidão. E com a trilha sonora perfeita, diz aí…
Semana dedicada a uma parte dos anos 1990 que tocaram a todos que lá estiveram, como eu e vários amigos espalhados pelo mapa do Brasil. Como bem lembrou o Xisto, que agora mora em BH, foi uma época em que eu morava em Maringá (região do Norte paranaense) e tínha uma turma de amigos e agregados obcecados pelas novidades que vinham da Europa. Até uma mini-rave (se é que podemos chamar assim) a gente tentou fazer na época!
Entre muitos que faziam parte dessa turma dos loucos por música e noite, começo mencionando Josley B, Fabricio (D.Vyzor), Adriano (Haveck) e Docão que se tornaram todos excelentes DJs, além de Batata & Carlão (dupla engraçada que se agregou a nós), o promoter Waltão Garcia e os irmãos Ricardo e Marcelo. E mais tarde o próprio Xisto iria se juntar a nós. A maior parte dessa turma animada acabou se juntando até pela frequência da danceteria que foi fundamental para a noite de Maringá nessa década, a Yellow. E foi nesse lugar que assistíamos muitos vídeos recém-lançados pela Telegenics, distribuidora poderosa da época e que nunca tínhamos ouvido falar, mas que foi fundamental na divulgação dos novos artistas que bombavam na novíssima cena da house e techno da época. Internet? Mp3? Nem sonhávamos, definitivamente eram outros tempos.
E como trilha desse momento, lembro muito bem dessas músicas mais doces embaladas com uma voz suave de alguma cantora obscura que tinham apenas um hit e depois sumiam, para dar a vez à próxima novidade. Uma delas foi Kirsty Hawkshaw do Opus III, nessa enigmática “It’s a Fine Day”, que até hoje não entendo como fez tanto sucesso: pode-se dizer que era o vocal, os arranjos de bom gosto (o que não quer dizer que seja popular), a melodia grudenta, o fato da música ter um formato pop, sei lá. Pense comigo: quantas músicas nesse formato foram lançadas ne época? Aqui no Brasil chegaram poucas, mas sei que no Reino Unido tinham vários singles com essa proposta.
E só pra constar, a versão original dessa bela música é da dupla Jane & Barton em 1983.
Uma das músicas que queria postar há tempos é este clássico do grupo inglês Sunscreem, que só traz boas recordações a todos da minha geração que viram a chegada da house e da cultura rave no Brasil no começo dos anos 1990. O mais bacana dessa música é que ao mesmo tempo em que ela é dançante é quase uma balada de tão doce que são melodia e os arranjos e voz da cantora do grupo Lucia Holm. O caráter futurista desta “enchedora de pistas” vem dos timbres muito bem arranjados, além terem sido muito felizes na cadência dos acordes (total papo de músico).
Depois deste smash hit o Sunscreem, cujo nome descobri veio de um sintetizador da Yamaha, praticamente se tornou o famoso one hit wonder pois os singles “Perfect Motion” e “Pressure” não empolgaram tanto os fãs de música eletrônica na época. Mesmo assim com “Love U More” garantiram seu lugar como um dos grandes singles da década de 90.
No post anterior citei esse projeto que tem nos irmãos ingleses Robin e Simon Lee um dos responsáveis pelas boas produções de nu disco atuais. Eles fazem música desde a década passada sendo que daquela época o single que lhes deu grande visibilidade foi a cinematográfica “In The Trees” (1996) uma house sinfônica como poucas vezes se ouviu antes. Guardo o 12″ que comprei na época como um troféu.
Com fortes influências de jazz, música latina e até ritmos africanos, nunca pararam de produzir. E foi com as faixas de inspiração disco que eles estão ganhando novo destaque. Em 2008 lançaram o álbum “Stratus Energy” no qual está o single da música homônima que ganhou espaço cativo no meu case.
E seguindo a trilha aberta pela disco animada, em 2009 lançaram “I Wanna Dancer” que possui vocais perfeitos com uma letra ótima, guitarra e baixos funky, sunths com timbres muito bem alternados além de violinos, os quais raramente se ouvem em produções eletrônicas.
A primeira vez que ouví esta house foi num dos melhores carnavais da minha vida: era 1996 e eu estava curtindo Florianópolis pela primeira vez. Estávamos todos enfiados no bar Órbita no centro de Floripa, uma ilha de música eletrônica no meio do mar de axé e samba das ruas. Acabamos caindo acidentalmente nesse cubículo sonoro onde acontecia de tudo embaixo de uma luz negra embalados pela trilha de um DJ inglês que, vim a saber depois, tinha sido roadie do grupo The Aloof, um dos precursores do prog house alguns anos antes na Inglaterra.
No meio da house e techno underground que saía das caixas, cortesia da dupla Spark & Spiceee (novos e ótimos DJs de Floripa daquela fase), o tal “DJ do The Aloof ” caprichava num repertório cheio de novidades e lá pelas tantas toca esta faixa que cativou meus ouvidos. Não era pesado como o techno ou cheio de vocais e percussão como a house normal que conhecíamos… era melódica, profunda e extremamente hipnótica. Fiquei sensibilizado naquele momento e guardo essa momento como o dia e a hora que caí de amores pela deep house.
Alguns meses depois adquirí a versão 12″ em Amsterdam, lugar onde foi produzida pela prolífica dupla de produtores holandeses Dobre & Jamez, e desde então, nunca mais saiu da minha case.
O grupo inglês Bizarre Inc. teve uma ascenção rápida no começo dos anos 90 e tinha na sua formação inicial Dean Meredith e Mark Archer, este último saindo após o primeiro álbum (Technological) pra formar o Xen Mantra e depois o Nexus 21/Altern 8. Com a debandada de Archer entraram Andrew Meecham and Carl Turner que iam formar o trio que iria marcar as paradas dance da Europa e EUA entre 91 e 93.
O primeiro single que os colocou em alta rotação nas pick-ups dos DJs foi a proto-hardcore “Playing With Knives” com a clássica fórmula em que o peso no corpo principal da música é alternado com um refrão melódico/extasiado.
O próximo single “Such A Feeling” trazia samples que lembravam as multidões das raves que estavam em seu auge no Reino Unido e na Europa, consagrando o Bizarre Inc. como um dos maiores live acts daquele momento.
Era hora de lançar o segundo álbum que veio com o nome “Energique“. Vale lembrar que nesta época os novos projetos/bandas de house e techno raramente lançavam neste formato, sendo o single 12″ em vinil o meio predileto de divulgação.
Desse mesmo álbum saiu o maior hit do projeto, a crossover de dance e pop “I’m Gonna Get You”, uma house com vocais dignos das melhores produções norte-americanas (cortesia de Angie Brown), e talvez por isso mesmo tenha sido a música que melhor colocação obteve nos charts dos Estados Unidos, chegando ao posto #1 da parada hot dance club e #47 na parada geral da Billboard.
Na sequência ainda obtiveram ótimas colocações com os singles “Took My Love” e “Love In Motion”. Depois gravaram um terceiro álbum e o projeto se desfez, sendo que a dupla Meecham and Meredith formariam mais tarde o projeto Chicken Lips, aquele do hit pioneiro de electro house “He Not Inn”.
E pra terminar deixo uma apresentação deles num programa de TV inglês na época do seu auge, com direito a um bom playback. De qualquer forma, vale pelas roupas, acessórios e cortes de cabelo pré-clubber e pelos passinhos de dança ainda remanescentes da acid house.