A primeira vez que ouví esta house foi num dos melhores carnavais da minha vida: era 1996 e eu estava curtindo Florianópolis pela primeira vez. Estávamos todos enfiados no bar Órbita no centro de Floripa, uma ilha de música eletrônica no meio do mar de axé e samba das ruas. Acabamos caindo acidentalmente nesse cubículo sonoro onde acontecia de tudo embaixo de uma luz negra embalados pela trilha de um DJ inglês que, vim a saber depois, tinha sido roadie do grupo The Aloof, um dos precursores do prog house alguns anos antes na Inglaterra.
No meio da house e techno underground que saía das caixas, cortesia da dupla Spark & Spiceee (novos e ótimos DJs de Floripa daquela fase), o tal “DJ do The Aloof ” caprichava num repertório cheio de novidades e lá pelas tantas toca esta faixa que cativou meus ouvidos. Não era pesado como o techno ou cheio de vocais e percussão como a house normal que conhecíamos… era melódica, profunda e extremamente hipnótica. Fiquei sensibilizado naquele momento e guardo essa momento como o dia e a hora que caí de amores pela deep house.
Alguns meses depois adquirí a versão 12″ em Amsterdam, lugar onde foi produzida pela prolífica dupla de produtores holandeses Dobre & Jamez, e desde então, nunca mais saiu da minha case.
O grupo inglês Bizarre Inc. teve uma ascenção rápida no começo dos anos 90 e tinha na sua formação inicial Dean Meredith e Mark Archer, este último saindo após o primeiro álbum (Technological) pra formar o Xen Mantra e depois o Nexus 21/Altern 8. Com a debandada de Archer entraram Andrew Meecham and Carl Turner que iam formar o trio que iria marcar as paradas dance da Europa e EUA entre 91 e 93.
O primeiro single que os colocou em alta rotação nas pick-ups dos DJs foi a proto-hardcore “Playing With Knives” com a clássica fórmula em que o peso no corpo principal da música é alternado com um refrão melódico/extasiado.
O próximo single “Such A Feeling” trazia samples que lembravam as multidões das raves que estavam em seu auge no Reino Unido e na Europa, consagrando o Bizarre Inc. como um dos maiores live acts daquele momento.
Era hora de lançar o segundo álbum que veio com o nome “Energique“. Vale lembrar que nesta época os novos projetos/bandas de house e techno raramente lançavam neste formato, sendo o single 12″ em vinil o meio predileto de divulgação.
Desse mesmo álbum saiu o maior hit do projeto, a crossover de dance e pop “I’m Gonna Get You”, uma house com vocais dignos das melhores produções norte-americanas (cortesia de Angie Brown), e talvez por isso mesmo tenha sido a música que melhor colocação obteve nos charts dos Estados Unidos, chegando ao posto #1 da parada hot dance club e #47 na parada geral da Billboard.
Na sequência ainda obtiveram ótimas colocações com os singles “Took My Love” e “Love In Motion”. Depois gravaram um terceiro álbum e o projeto se desfez, sendo que a dupla Meecham and Meredith formariam mais tarde o projeto Chicken Lips, aquele do hit pioneiro de electro house “He Not Inn”.
E pra terminar deixo uma apresentação deles num programa de TV inglês na época do seu auge, com direito a um bom playback. De qualquer forma, vale pelas roupas, acessórios e cortes de cabelo pré-clubber e pelos passinhos de dança ainda remanescentes da acid house.